Em mar alto

E assim passou. Como o tempo voa a partir de certa idade. Temos tanta pressa em novos, quando nos tornamos mais velhos queremos saborear tudo num ritmo mais compassado. Apesar dos avisos, eu achei que nunca iria ser assim! Nem preocupada com o tempo, nem interessada em ver conjuntos de frigideiras, nem em tirar fotografias de plantas e postar no instagram.
Também nunca achei que me iria tornar mais paciente, menos preocupada com a opinião dos outros, mais "deixa andar" com certas coisas. Acho que a idade nos traz a sabedoria de que sozinhos não conseguimos mudar o mundo inteiro, mas conseguimos mudar-nos a nós mesmos e isso é o que é realmente importante!
Sinto a consciência tranquila relativamente às decisões que fiz durante o meu percurso. Sempre dei o meu melhor, nunca fiquei pela metade. Sempre fui inteira. A esta distância possivelmente faria tudo diferente, não por arrependimento, apenas e só, porque cresci e vejo o mundo de um outro modo. Ainda assim não voltaria atrás. O caminho é sempre em frente, mesmo que por vezes ainda olhe pelo retrovisor e sinta dor pela perdas e caminhos acidentados que percorri.
Ainda existem feridas abertas. Ainda dói não ter conseguido, mas tentei para além do meu limite, para além do suposto, para além do recomendável, para além do inconcebível, para além da minha própria segurança e estabilidade. Fiz para além de mim, quando nada dependia de mim, quando nada estava nas minhas mãos. Nada estava à distância de uma decisão ou ação minha. Quem não sofre com o sofrimento de quem podia não sofrer?
Ainda penso ir atrás. Ainda penso que há um relâmpago por acontecer, uma chance por tentar, uma esperança por viver. Mas quem dirige o seu próprio crescimento? Mas quem decide sobre a sua vontade? Mas quem sou eu?
Também isto passará. Porque tudo passa, no momento certo. Até lá vive-se com o passado a caturrar o coração tingindo. Ou não fosse eu descendente de navegantes marinheiros.